Olimpíadas Estudantis
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Carta de uma velha estudante aos que fazem as Olimpíadas Escolares

15/12/2017

Carta de uma velha estudante aos que fazem as Olimpíadas Escolares

Durante muitos anos a escola representou mais do que o lugar onde se
aprendia a ler e a escrever. Ela foi para mim um espaço privilegiado de aprendizagens
por tudo aquilo que ela oferecia: o recreio, o esporte, a fanfarra, as festas e também as
aulas. Escola para mim era sinônimo de um universo quase ilimitado, que duas vezes
por ano era fechada por conta das férias, que significavam a reclusão à casa, onde o
quintal não era grande o suficiente para minha necessidade de movimento e as
brincadeiras de rua eram proibidas por causa de ônibus e carros que circulavam. O ano
letivo era marcado pela preparação para a festa junina no primeiro semestre, e, no
segundo, pelo campeonato colegial.

Isso porque na 4ª série a professora de educação física Maria Keiko Morinaga,
me tornou uma frequentadora assídua de suas aulas que me permitiam representar a
escola nas diversas competições escolares e posteriormente em clubes. Guardo dessa
época a lembrança da participação em Jogos Colegiais, de competições no Ginásio da
Água Branca e no Ibirapuera, o encontro com crianças de outras escolas e regiões, o
que me indicava que São Paulo era bem maior que meu bairro e que havia gente muito
diferente nessa cidade. Percebo também, depois de me tornar pesquisadora, que essa
experiência é compartilhada com outas tantas pessoas que tiveram a chance de ter um
bom professor de educação física. Essa pessoa a gente nunca esquece, tendo chegado
ou não ao nível olímpico.

Descobri cedo que ao ser reconhecida como atleta eu ganharia uma chave para
abrir muitas portas pelo mundo. Superei os limites de meu bairro, viajei pela primeira
vez sem meus pais e, muito embora o esporte fosse absolutamente amador, havia
ganhos que dinheiro algum era capaz de comprar.

A participação e destaque nas competições escolares me renderam o convite
para representar um clube que na época era a grande potência do voleibol feminino
em São Paulo: o Clube de Regatas Tietê. Lá tive a oportunidade de ser dirigida por um
técnico que era, acima de tudo, um grande educador: João Crisóstomo Bojikian, à
época professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP e recém-chegado de
um estágio de formação em voleibol no Japão, a grande potência olímpica e mundial
da época. Diante da resistência de meus pais em permitir meu deslocamento até
Santana, João fez um acordo oferecendo-se como meu tutor e motorista, ou seja,
embora eu fosse para o treino com transporte do clube, seria ele o meu condutor até
minha casa após o treino que terminava por volta das 10 da noite.

Foi por meio do esporte que o mundo se apresentou maior e mais
diversificado. Pelo voleibol comecei a viajar, a conhecer pessoas, lugares e coisas
diferentes. Rapidamente entendi que aquela atividade poderia representar a
superação de um modelo suburbano que se reproduzia ad infinitum naquele grupo
frequentado na escola e na própria família, onde poucos haviam conseguido transpor
os limites do bairro.

Embora tenha me esforçado para ser atleta, não alcancei qualquer seleção
regional, nacional, ou mesmo de nível olímpico, mas tenho clareza que características
como disciplina, determinação e disposição para superar limites, foram desenvolvidas
em função das exigências do esporte. Hoje se discute os danos que a competição pode
gerar nos escolares, mas observo que no meu caso esse processo foi conduzido por
profissionais competentes, o que me capacitou não apenas a enfrentar os desafios do
esporte em específico, mas principalmente me preparou para um mundo adulto
altamente competitivo, fosse profissional ou escolar.

Entendo hoje em que plano essa educação pelo esporte se operou. Pouco ou
nada se falava em Olimpismo naqueles tempos, mas é fato que esses meus
professores eram profundos aplicadores de Educação Olímpica. Valores como
amizade, excelência, respeito, coragem, determinação, inspiração e igualdade não
foram apenas teorizados, mas largamente aplicados por meus professores de
educação física que nos colocavam dentro de suas brasílias e fuscas, quando não
pegavam ônibus de linha, para chegar aos lugares de competição. Mães ajudavam a
colar os números nas costas de nossas camisetas brancas e as agregadas de última
hora recebiam as suas com fitas adesivas. Isso tudo que parece improviso (e era!) me
ajudou a desenvolver uma prontidão para resolver problemas e não os negar, além da
sensibilidade para não permitir que o desejo de ir para a competição pudesse ser
interrompido por uma deficiência material.

Os tempos hoje são outros. Discute-se sobre a importância do esporte na
escola e mesmo das olimpíadas estudantis. Eu não tenho dúvidas: elas precisam
acontecer, mesmo com dificuldades e problemas. Elas são a oportunidade de se
experimentar o frio na barriga, ainda em um ambiente protegido, que em tantas
outras oportunidades a vida nos defrontará. Elas promoverão o encontro com outros
estudantes, o deslumbramento pela visita a ambientes ainda desconhecidos, o contato
com emoções exigidas na competição, e acima de tudo, valores.

Obrigada a todos vocês que participaram, colaboraram, ensinaram e
contribuíram para que mais essa edição ocorresse. E no próximo ano nos
encontraremos novamente.

Prefeitura de São Paulo - Educação
Fedeesp

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